Um índio na cidade

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Coluna Literatura em Foco (Ruan Vieira) – Nada melhor do que ter ar para respirar, mas um bom ar, um ar puro. Este faz bem à saúde e os pulmões agradecem. Assim pensava Tirú, um dos índios que saiu da floresta e foi pra cidade. Ele se cansou da floresta e foi experimentar viver na vida urbana. O que ele não esperava era encontrar um lugar tão aglomerado, com muita gente, muita movimentação, carro pra lá, carro pra cá, moto que vai, moto que vem, automóveis e pedestres, muita circulação, muita poluição. Tirú ficou impressionado com tanta gente, tanto automóvel. Ele estranhou as roupas e os dispositivos eletrônicos que as pessoas usavam. Tirú saiu da mata porque cansou da vida que levava, sem falar que ele era sozinho e Tirú cansou de ficar sozinho na imensidão da floresta. O que ele não sabia era que não precisava ir até à cidade, porque ela já estava vindo até ele. Andando pelas ruas e calçadas, com apenas uma parte de seu corpo coberta, ele chamou a atenção de pessoas que estavam a passar e notaram na sua vestimenta. Uma mulher exclamou: – Meu deus, um índio! Algumas pararam pra tirar foto com Tirú. Outras passaram longe. Ele ficou um pouco assustado ao ver algumas pessoas deitadas no chão. Eram moradores de rua. Tirú se aproximou e se deitou perto deles, ficou observando que a maioria das pessoas seguravam um dispositivo na mão. Tirú queria um também. Ele saiu à procura de algum lugar que tivesse aqueles dispositivos. No caminho, presenciou um acidente de carro, um motorista estava ao telefone e o outro alcoolizado. Tirú ficou assustado e correu.

Ele se escondeu atrás de um poste e ficou observando a cena de longe. Pessoas se aproximaram pra tirar foto. Os dois motoristas haviam se ferido. Depois de alguns minutos,
chamaram à ambulância, mas só depois de publicarem as fotos nas redes sociais. Tirú foi embora daquele lugar, foi para uma outra rua. Ele viu mais pessoas deitadas na rua e não entendia. Com tantas casas, tantos prédios, com tanto lugar no mundo, ele não entendia o porquê de tanta gente morando na rua. Ele se sentou na calçada. Com frente a onde ele estava sentado, havia um supermercado. Ele ficou observando as pessoas entrando sem nada e saindo com um carrinho cheio de alimentos. Tirú se levantou e entrou também. Ele se maravilhou com tanta comida em um lugar só. Ao ver uma banca cheia de frutas, ele se dirigiu até ela e ficou observando as pessoas a pegarem algumas frutas e colocarem em carrinhos ou cestas, ele então pegou uma goiaba, mas como estava sem ter onde colocar, levou a fruta à boca. Um rapaz que estava próximo ao índio o repreendeu. “Não pode fazer isso se não for pagar!” Tirú nem entendeu o que o rapaz queria dizer e antes de sair dali, pegou mais algumas frutas. O segurança logo foi chamado e Tirú causou uma confusão no supermercado. Mas no fim, foi liberado e saiu sem nada. Só com uma goiaba no estômago. Ele ainda estava com fome e enquanto andava, avistou um trailer parado, com algumas mesas com cadeiras ao redor. Era um ponto de fast-food. Ele sentiu um cheiro bom, estavam fritando carne. Tirú logo se dirigiu ao lugar e reparou em pessoas se sentando à mesa. Elas logo viram o índio se aproximar e algumas o convidaram para sentar e comer. Pediram para o índio um hambúrguer e batata frita acompanhada com coca-cola. Tirú estava com tanta fome, que assim que o garçom pôs o lanche sobre a mesa, ele não pensou duas vezes e começou a devorar o lanche. Ele comia um pedaço do hambúrguer e logo em seguida pegava algumas batatas e colocava na boca um atrás do outro, depois tomava o refrigerante. Não demorou muito pra que o lanche fizesse um estrago no estômago do índio, em plena hora de almoço, as pessoas comendo frituras, elas já estavam acostumadas, mas Tirú não estava e a dor de barriga que deu nele foi tão forte que o coitado não aguentou e correu pro mato mais perto. As pessoas riram, algumas até sabiam o que Tirú estava passando, pois assim como ele, também já passaram pela mesma situação e ainda passavam. Mas como a vida estava corrida, elas apressadamente sempre ingeriam lanches ao invés de um almoço saudável, era mais rápido comer frituras ou comidas já prontas na rua, do que ir pra casa e ter que cozinhar. Tempo não era algo que àquelas pessoas tinham de sobra. Depois do acontecimento constrangedor, Tirú fugiu daquele lugar, estava assustado.

Enquanto andava, ele passou por alguns lugares e viu uma fumaça saindo e deixando o céu
cinza. Perto de onde ele estava, automóveis passavam e Tirú logo começou a tossir, ao respirar aquele ar. Ele começou a correr. Distraído, o índio se bateu em um padre, que estava saindo da igreja. O padre ficou impressionado com o que viu e logo pegou na mão do índio e disse: – Meu filho, faz tempo que não te via. Seus ancestrais estavam perdidos, assim como você agora, mas foram ajudados a encontrar o caminho. Vem, eu vou te ajudar. Primeiro, você precisa mudar essas roupas. Vem comigo.

O padre levou Tirú pra dentro da igreja e o apresentou a alguns civis. Um deles logo exclamou:
– Padre, vamos catequizá-lo!
E os outros também se pronunciaram: – Mais um selvagem entrando no caminho da civilidade.

Tirú só ouvia vozes, mas não entendia nada. Ele logo reparou no lugar onde estava e não se maravilhou com o que viu e assustado, mais uma vez correu e fugiu dali. Ao andar pela cidade, ele sem saber bem por onde ia, passou por lugares estranhos pra ele. Adentrou em ruas aparentemente abandonadas, as casas velhas, a rua esburacada, um mau cheiro tomando conta do lugar. Moradores com o rosto abatido, tristes, cabisbaixo, como se tivessem sido esquecidos, como se estivessem cansados, sem esperança. Tirú foi andando e passando por lugares que pareciam ser os mesmos, mas eram ruas diferentes. Ele não entendia. Porém se sentia triste. Em uma das ruas, tinha alguém tocando fogo em coisas velhas, Tirú logo se desesperou com todo aquele fogo e aquela fumaça, ele procurou por água e pegou um balde velho com água parada, cheia de larvas de mosquito que estava sobre uma calçada e jogou sobre o fogo. O morador logo se irritou com a atitude do índio e começou a xingá-lo. Tirú saiu correndo e sem olhar por onde ia, tropeçou num pedaço de pau e caiu sobre um monte de lixo.

Era muito lixo, ele nunca tinha se deparado com aquilo. Havia alguma coisa escrita no muro, mas Tirú não conseguiu decifrar. Estava escrito: “Proibido jogar lixo” Depois de passar por vários lugares e andar no meio de todas àquelas pessoas, Tirú começou a sentir falta de casa, ele começou a perceber que o lugar em que estava não era um bom lugar e a solidão ainda o acompanhava, mesmo estando rodeado de tantas coisas e pessoas. Enquanto mergulhava na saudade, ele foi surpreendido por um homem engravatado, que foi em sua direção e lhe pediu ajuda. Algumas pessoas que passavam, cumprimentavam o
homem o chamando de Dr. Cristóvão. Esse cidadão bem trajado e educado, estava concorrendo na eleição para prefeito da cidade e precisava de um vice. Como sua campanha era em prol do meio ambiente, de povos indígenas e suas terras, além da preservação da natureza, ele decidiu convidar o índio para se juntar a ele. Tirú não entendeu nada, mas Dr. Cristóvão conseguiu se aproximar dele. Comprou roupas para o índio e lhe disse para se vestir, pois iriam para uma entrevista e ele apresentaria o seu vice para o público. Tirú pôs as roupas, mas se sentiu estranho. Mas não teve tempo de tirar, porque o político já foi o pegando pelo braço e o levando para o carro. – Estamos atrasados! – disse Cristóvão.

Ao chegar ao destino, alguns eleitores tiraram fotos com o político favorito. Tirú estava desnorteado naquele lugar. Ele viu o Dr. Cristóvão passando um papel amassado pra algumas pessoas, que aparentemente estavam cobrando alguma coisa. Cristóvão sorria cinicamente e um pouco constrangido, mas seguiu em frente e anunciou oficialmente a sua candidatura, as suas propostas e o seu vice. Tirú estava totalmente perdido ali. Pediram pra o índio aparecer e falar alguma coisa. Mas ele só apareceu, tiraram fotos dele, mas Tirú nada falou. O político abrigou o índio, deu de comer e beber para ele, manteve o vice por perto. Tentou lhe ensinar a sua língua, mas logo se deparou com um dilema. Pois Cristóvão queria ensinar a língua que havia aprendido para o índio, mas percebeu que a língua a qual falava não pertencia aquele lugar, mas que havia sido trazida por outros e que no fim das contas, ele era quem devia aprender a língua do índio. Então, ficou um pouco confuso com tudo isso e desistiu da ideia.

Alguns dias se passaram, desde a ida de Tirú à cidade. Ele ainda não havia se acostumado ao lugar e estava com vontade de ir embora. Cristóvão percebeu a inquietação do rapaz e fez um trato, disse para o índio que assim que ele tivesse um resultado, Tirú poderia voltar pra casa. Após mais alguns dias de estranheza e saudade, o índio foi avisado que logo seria liberado para voltar pra casa. Pois o político havia logrado êxito e se elegeu para prefeito da cidade. Tempo depois, assim que assumiu, Dr. Cristóvão, contrapondo sua campanha, mandou derrubar algumas árvores para construir alguns edifícios para ampliar seus negócios. Tirú ainda estava na cidade, havia ficado mais um tempo na casa do novo prefeito. Quando o índio voltou pra floresta, ficou assustado e triste com o que viu. Pois não havia mais floresta. A cidade estava cada vez mais perto e enquanto ele estava na área urbana, a sua casa foi engolida e sumiu. Tirú começou a chorar e ficou enfurecido. Sem ter pra onde voltar, o índio foi obrigado a conviver entre aquelas pessoas estranhas. Ele teve que aprender a se comunicar na língua falada pelos outros, teve que se vestir como os outros, teve que procurar um trabalho e teve que mudar seu modo de se comportar pra se encaixar e fazer parte da civilidade. Aos poucos, Tirú foi se afastando de suas origens e perdendo sua identidade. Quem um dia o viu como índio, agora já não o reconhece.

Ruan Vieira